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S84

Introdução

A inovação aberta, um campo em exploração ao nível in-

terno das organizações empresariais, mas ainda em fase

de discussão pública em meios institucionais mais abran-

gentes, impõe desafios – legais, operacionais, culturais –

ao ciclo da inovação clássico. Os aspetos de propriedade

intelectual constituem um dos maiores desafios inerentes

ao tema, porquanto a utilização de ideias e tecnologias

externas no processo de inovação está sujeita, tradicional-

mente, a restrições, resolvidas com recurso a soluções que

vão desde a autorização à cobrança de

royalties

ou a alianças

corporativas.

No entanto, em atuais contextos mais favoráveis à adoção

deste modelo (e.g. países como a Índia ou o Brasil), a inova-

ção aberta tem-se provado geradora de um conjunto de be-

nefícios sociais e económicos que justificariam uma abor-

dagem proativa e empenhada na resolução dos desafios em

causa. Casos concretos permitem já avaliar um significativo

contributo para o desenvolvimento sustentável de comuni-

dades alargadas, especialmente em meios mais carenciados.

O seminário “

Big data

, desenvolvimento sustentável e a

ciência aberta”, realizado no dia 23 de junho de 2016, em

Lisboa, sob organização do Instituto Francês e do Institu-

to de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova

de Lisboa e com o apoio da Fundação brasileira Fiocruz e

da Agência Nacional da Inovação de Portugal, teve como

objetivo apresentar casos concretos capazes de evidenciar

a relevância de que a inovação aberta pode revestir-se em

diferentes contextos. Adicionalmente, o evento mostrou

também os meios já disponíveis, e em desenvolvimento,

para promover a inovação aberta com base em grandes

quantidades de dados e informações, tais como aqueles que

existem hoje em dia nas patentes registadas em vários re-

positórios pelo mundo.

Assim, a sessão

Big data, informação aberta para transferência

de tecnologia

deste evento incidiu sobre a apresentação de

dois casos práticos de aplicação da inovação aberta sobre

dados de patentes e sobre a exposição de duas vertentes

de aplicativos informáticos especificamente desenvolvidos

para o tratamento destas grandes quantidades de dados.

Manuel Durand-Barthez, Conservador Geral da

Unité Ré-

gionale de Formation à l’Information Scientifique et Technique

(URFIST) de Paris, apresentou um caso de inovação fru-

gal com base em informação aberta; Sérgio Matos, Inves-

tigador Associado do Instituto de Eletrónica e Engenharia

Informática da Universidade de Aveiro, abordou a mine-

ração de patentes para descoberta de conhecimento sobre

fármacos;Abdelkader Baaziz, Professor Associado da École

Nationale Supérieure e Management d’Alger

, Universidade de

Tipaza, apresentou um outro caso concreto de transferên-

cia de tecnologia com informação aberta, desta feita na

área da exploração petrolífera; e, por fim, a intervenção de

David Reymond, Leitor da área de Ciências da Informação

e Comunicação da Universidade deToulon, incidiu sobre o

mapeamento de

big data

.

Descrevem-se abaixo os pontos principais destas apresen-

tações, pretendendo-se destacar a verificação do potencial

da inovação aberta para a dinamização dos sistemas nacio-

nais de inovação e para o desenvolvimento sustentável glo-

bal, tal como transmitido pelos oradores e que constituiu

também o objetivo da sessão em causa.

Inovação frugal com base

em informação de patentes:

casos de sucesso

Na apresentação de Manuel Durand-Barthez, expondo um

caso de inovação frugal com informação aberta, esteve pa-

tente o forte potencial da inovação frugal para uma outra

forma de inovação: a inovação social. Com efeito, Durand-

-Barthez começou por apontar que os principais canais de

informação científica – tais como artigos de investigação

ou teses – não são os vetores preferenciais da informa-

ção técnica para resolução de problemas, nomeadamente

aquela consultada por engenheiros, dado serem de difícil e,

muitas vezes, dispendioso acesso. Ao contrário, a patente,

um documento de carácter essencialmente técnico, muito

concreto, sintético e de livre acesso, constitui uma fonte

importante de informação aberta para novas aplicações a

problemas sociais concretos.

Porém, o registo de patentes nos países desenvolvidos ten-

de a inserir-se num sistema

top-down

na perspetiva da sua

venda aos países menos desenvolvidos. No entanto, a aber-

tura da Propriedade Intelectual e Industrial promovida já

em alguns países, tais como a Índia, a China ou o Brasil,

permite criar um sistema simétrico, no sentido em que

parte de problemas existentes entre os consumidores para

chegar, através da consulta dessa informação, a possíveis

soluções que possam ser adaptadas, criando um sistema de

“inovação reversa” particularmente útil às classes sociais

desfavorecidas. Exemplos de aplicação desta forma de ino-

vação, frugal e quase imediata, capaz de resolver proble-

mas medianamente complexos, são métodos de deteção,

diagnóstico e luta contra doenças (paludismo, tuberculose,

filariose e outras), aplicações de vigilância epidemiológica

ou de proteção ambiental.

Naturalmente, não pode ser negligenciado o princípio

fundamental do Retorno sobre o Investimento (ROI) as-

sociado às patentes, constituindo a contrapartida financeira

para a publicação da descrição da inovação. Porém, importa

salientar que o registo da patente tem uma incidência geo-

gráfica inerente e que, por outro lado, o conceito incluído

na patente é protegido contra uma utilização em escala in-

dustrial.

Deste modo, a vantagem desta forma de inovação frugal

centra-se, não numa atividade inventiva de alta intensidade,

Big Data

e ciência aberta